domingo, 13 de julho de 2008

Capítulo 10

_ É estranho estar aqui.

Repeti essa frase, pelo menos umas três vezes enquanto Guto e eu acompanhávamos o Cadu no cemitério.

Todo ano, Cadu vai ao cemitério no dia em que seu pai comemoraria seu aninversário.

Guto me puxou pelo braço, enquanto eu caminhava sem rumo por entre os túmulos:

_ Não seja boba! Até parece que nunca esteve num cemitério antes.

_ Somente uma vez e foi quando o senhor Dantas morreu.

_ Eu me lembro desse dia. Você esteve ao lado de Cadu todo o tempo. Ofereceu seu ombro para que ele chorasse a morte do pai.

Respirei fundo enquanto via Cadu olhando para o túmulo do pai.

_ Nós éramos muito jovens ainda. Perder um pai não deve ser nada fácil. Ainda mais da forma como foi.

_ Aquele assassinato foi realmente muito chocante. Uma cena nada fácil de se esquecer.

_ Você viu?

_ Duda, eu vi tantas coisas.

_ Mas como é capaz? Você não deveria estar perto do Cadu?

_ Eu estava.

_ Como isso? Cadu estava na casa dele quando o pai foi morto no centro da cidade. Não é possível!

_ Duda, vou te contar o lado da história que ninguém conhece. Ninguém vivo.

Escutei horrorizada cada uma das palavras sobre o assassinato do senhor Dantas.

Um médico de prestígio que foi brutalmente assassinado. Até então pensei que sua morte havia sido em vão, mas depois de saber o que realmente aconteceu, penso que o pai de Cadu morreu como um herói.

O assassino era um de seus pacientes, que havia perdido o filho numa cirugia feita pelo senhor Dantas, ou melhor, pelo doutor Dantas. O rapaz havia chegado com traumatismo craniano após um acidente de automóvel. O rapaz estava dirigindo alcoolizado.

A morte era inevitável, mas o doutor Dantas não iria desistir de um paciente, por mais impossível que sua recuperação parecesse.

O estado era grave demais e o jovem faleceu na mesa de cirurgia. Era a primeira vez que o doutor perdia um paciente.

Foi avisar o pai do rapaz e recebeu um soco como agradecimento. Ele o culpou pela morte do filho e disse que se vingaria. Olho por olho, dente por dente.

Dois dias depois, aquele senhor apareceu na frente da casa de Cadu. O doutor chegava da clínica no momento e estranhou a situação. O homem se aproximou e disse em voz baixa que não iria matá-lo, mas sim que iria matar Cadu.

Naõ adiantaram as tentativas de diálogo, mas a troca de vidas sim. A vida dele pela vida de Cadu.
Cadu estava dormindo, então Guto decidiu acompanhar os dois que haviam resolvido conversar longe dalí.

O doutor não esperava que aquele senhor possúia uma arma e quando sentiu os dois tiros perfurando seu corpo, percebeu que acabara de salvar a vida do filho.

Suas últimas palavras foram:

_ Que haja alguém que proteja meu filho.

Guto se aproximou e disse:

_ Não se preocupe. Essa é minha missão.

Naquele momento o doutor sabia que estava morto e disse que não queria permanecer por muito tempo alí. Guto explicou o que aconteceria dalí em diante e o senhor Dantas pediu para que pudesse se despedir de Cadu.

No meio do caminho decidiu que não queria se despedir, pois isso era sofriemento demais.

Atualmente o senhor Dantas é anjo de um órfão, o filho do rapaz que morreu na mesa de cirurgia.
Cadu estava indo embora quando virei em direção ao Guto e perguntei algo que não fazia sentido:

_ E o anjo?

_ O que?

_ Ele não deveria estar protegendo o senhor Dantas.

_ Deveria estar.

_ Não estava?

_ Não sei.

_ Como não sabe? Você não o conhece?

Guto riu:

_ E você conhece algum outro anjo fora eu?

Eu já havia pensado nisso antes. E os outros anjos? Onde estavam? O que faziam?

Guto me explicou que nós anjos não podemos ver outros como nós. Que essa é uma das regras. Eu poder vê-lo era uma exceçao dada aos anjos aprendizes.

Cada um tem um anjo. E eles estão por toda parte. Vivem sem se comunicar com ninguém, vivem somente em função de seus protegidos. Guto esteve solitário por todo esse tempo e logo eu estaria solitária.

Ser um anjo e o inferno são destinos muito parecidos, mas a recompensa de proteger alguém é muito grande. A felicidade no olhar de seu protegido é algo indescritível.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Capítulo 9

Guto estava sentado na janela do quarto de Cadu. Decidi chegar de mansinho para assustá-lo, mas fui surpreendida:

_ Acha mesmo que vai conseguir me assustar? E se conseguisse, era capaz de eu cair e isso não teria graça.

_ Era só você sair voando e nada de ruim iria acontecer.

Guto saiu da janela, sentou-se na cama e me olhou com um ar de reprovação:

_ Acha mesmo que minhas asas aparecem assim do nada? Precisa aprender muita coisa ainda.

_ Então me ensine!

_ Há somente uma situação onde um anjo pode usar suas asas. Quando precisa ajudar seu protegido.

_ Entendo. Mas e aquele dia? Não estávamos nem mesmo perto de Cadu. Como explica o fato delas terem aparecido?

_ Elas somente apareceram, não as usei. Mas aquela foi uma situação inusitada. Normalmente, as asas só aparecem quando precisamos usá-las. Além de que permanecer com elas por muito tempo diminui o poder de interferência.

_ Poder de interferência? Como assim?

_ A tentativa de se comunicar com seu protegido dando-lhe pressentimentos. Esse é o poder de interferência.

_ Compreendo. E você já usou suas asas?

_ Somente uma vez.

_ Cadu estava em perigo tão grave assim?

_ Não. Eu as usei quando tentei te proteger, pois precisava ser rápido ou seria tarde demais, mas eu não consegui ser rápido o suficiente.

Guto levantou-se, respirou fundo e voltou a se sentar na janela.

Sem ter o que falar, saí do quarto e fui até a sala. Cadu estava sentado no sofá. A televisão estava fora do ar, mas parecia que ele nem havia percebido. Nunca o tinha visto assim antes. Sentei-me ao seu lado e ficamos alí a tarde toda até que ele se levantou e voltou para o quarto. Seguí-o e vi que Guto continuava na janela:

_ Estava interessante o que assistiam?

_ A televisão estava fora do ar.

_ Eu sei, mas vocês ficaram tanto tempo olhando para ela. Pensei que isso fosse interessante.

_ Não seja bobo!

_ Não vá me dizer que se tornaram zumbis e aquilo era um tipo de hipnose ou algo parecido.

_ Quer que eu te empurre da janela?

Ele parou com as brincadeiras e começou a descer pela escada. Comecei a seguí-lo:

_ Onde você vai?

_ Por que está me seguindo? Fique aí com Cadu.

_ Mas ele já se deitou e logo vai dormir.

_ Mesmo assim. Fique aí!

_ Não pense que manda em mim.

Ele passou pelo portão, começou a correr pela rua e gritava que eu não o devia seguir. Exitei por um momento e me escondi atrás de uma árvore sem ele perceber. Logo após comecei a seguí-lo.

Chegamos à praça, ele parou e gritou:

_ Pensa que não sei que está me seguindo?

_ Por que veio até aqui novamente?

Aproximei-me dele e pude ver Aninha sentada num banco. Olhei para Guto e ele estava triste.

A surpresa foi imensa. O que me restava fazer era sair daquele lugar e deixar Guto perto de sua grande paixão e, também, minha melhor amiga: Ana Duarte Medeiros.

Durante a volta pensei na infelicidade que eu havia causado a ele e, também, no fato de Aninha ter sido sempre apaixonada por Paulo.

O amor de Guto era duplamente impossível, pois agora ela tinha chance de se aproximar de Paulo. Estava explicado o porquê de seu grande sofrimento.

Subi a escada e fiquei sentada na janela. A noite estava incrivelmente bela. As estrelas brilhavam mais que nunca ou era eu que nunca havia parado tempo suficiente para adimirá-las.

Perceber que o tempo já não é limitado, que se tem a eternidade para viver é algo assustador e bom ao mesmo tempo.

Lembrei-me de Guto e seu novo destino. Qual será sua punição?

Mais perguntas me vieram à cabeça. Dentre elas, o que haveria acontecido com meu anjo e qual seria o lendário quinto destino?

Precisava começar a investigar, mas o único meio de descobrir seria perguntando a Guto e ele, com certeza, falaria que não devo querer saber sobre isso, que devo esquecer meu anjo.

Perdida em meus pensamentos não percebi que Guto estava subindo pela escada. Com o susto caí da janela. Ele começou a rir:

_ Pensei que estava fingindo que não me viu. A sua expressão de pensadora faz qualquer um pensar que você realmente pensa.

_ Não seja idiota! Como ia perceber que você já tinha voltado? Além do mais, por que já voltou?

_ E por que me deixou sozinho lá?

_ Mas você mesmo disse que não era para seguí-lo.

_ E você me seguiu mesmo assim, mas sumiu como se tivesse visto uma assombração.

_ Não me assusto quando vejo você!

_ Sabe que suas piadas geralmente não têm graça?

Até aquele momento eu continuava caída no chão. Guto me estendeu sua mão para ajudar a me levantar, mas recusei sua ajuda:

_ Obrigada, mas consigo me levantar sozinha.

Ele fez um sinal de reprovação com a cabeça:

_ Tudo bem. E só uma coisa: não me faça perguntas sobre o porquê de eu ir à praça.

_ Não sou curiosa.

Não precisava perguntar algo do qual já sei a resposta, afinal era óbvio, pois Aninha era amiga de Cadu e muitas vezes saímos juntos. Só podia ser ela.

Quanto ao lendário quinto destino, deixaria minha curiosidade durar mais algum tempo.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Capítulo 8

Era de manhã quando Maria Fernanda apareceu para visitar Cadu. Como sempre, estava toda arrumada como se fosse uma modelo prestes a entrar na passarela.

Nunca nos demos bem, principalmente, depois que descobri que ela também gostava do Cadu. Por isso, achei estranho o fato dela ter se casado com o Paulo, mas casamento sem amor está fundado ao fracasso, pois mesmo casada ela continuava gostando do Cadu.

E ela querendo visitar Cadu era uma afronta a mim. Mal eu havia morrido e ela estava prestes a tentar jogar todo seu charme para conquistá-lo.

Fiquei revoltada e, ao mesmo tempo, feliz, porque sabia que Cadu não ia se render aos encantos dela, pois se fosse assim, ele já teria se apaixonado por ela há muito tempo.

A senhora Virgínia a atendeu e pediu para que voltasse outro dia:

_ Ele não quer ver ninguém. Ficou bravo outro dia, quando deixei Paulo entrar.

Maria Fernada se assustou:

_ Paulo esteve aqui?

_ Sim! Cadu nem conversou com ele, trancou-se no quarto. Depois pediu para que eu não deixasse mais ninguém visitá-lo.

O susto dela foi o mesmo que o meu. Paulo e Cadu nunca foram amigos, por conta da história de Paulo gostar da Maria Fernanda e ela gostar do Cadu.

Guto riu:

_ Foi extraordinária a cara que Paulo fez quando Cadu bateu a porta do quarto. Dei muita risada nesse dia.

_ É estranho ele ter vindo visitá-lo. Nunca foram amigos.

Guto fez uma cara de pensativo:

_ Pensando bem, não entendi esse interesse repentino de Paulo em visitar seu grande rival.
Ainda mais, depois da briga da semana anterior a sua morte.

_ Briga? Que briga?

_ Muitas coisas aconteceram, Duda! Muitas coisas!

_ Então me diga!

_ Paulo veio tirar satisfação com Cadu, depois de Maria Fernanda ter jogado em sua cara, que havia se divorciado para tentar conquistá-lo. Tiveram uma discução feia e só não se bateram porque Bia começou a chorar.

_ Que horror!

_ Paulo gritava e queria respostas de porque Maria Fernanda se sentia tão confiante a esta altura dos acontecimentos. Ele queria saber se Cadu havia lhe dado esperanças.

_ E o que Cadu respondeu?

_ Gritou que gostava de você e que nunca ficaria com Maria Fernanda. Depois disso Paulo foi embora.

_ Ele disse isso?

Guto irônico:

_ Poderia ter sido uma desculpa para não apanhar.

_ Bobo! Sei que não foi uma desculpa. Ainda mais que Cadu nunca fugiria de uma briga. Mesmo sendo mais fraco que Paulo, o orgulho de Cadu é muito grande.

_ Eu sei! Eu sei! Foi só uma brincadeira.

_ O que é estranho é o fato dele ter vindo visitá-lo depois que morri. Será que se arrependeu ou algo assim?

_ Essa é uma boa pergunta, da qual não sei a resposta.

_ Outra coisa que me incomoda é a confiança de Maria Fernanda. Por que ela se divorciou de Paulo se não tem chances com Cadu? Ou será que tem?

_ Você mesma devia saber essa resposta. Nunca subestime uma mulher apaixonada. Ela é capaz de tudo para conseguir o que quer.

Senti um tremor horrível depois do que Guto disse. Ela seria capaz de tudo para conquistar Cadu, inclusive eliminar o único e grande obstáculo: eu.

Não podia ser! Será que Maria Fernanda chegaria a esse extremo?

Paulo podia ter descoberto e vindo contar a Cadu. Não! Isso é besteira! Tem que ser!

Guto preocupado:

_ O que foi, Duda? Por que está com essa expressão de terror?

_ Nada! Alguns pensamentos bestas me passaram pela cabeça, mas nada demais.

_ Pensamentos bestas?

_ Deixe pra lá.

_ Mas...

_ Quem me matou?

Guto fez uma cara de espanto:

_ Nossa! Que pergunta repentina!

_ Responda! Você deve saber quem foi, pois do contrário não teria tentado me proteger.

_ Duda, esse assunto é delicado.

_ Claro que é delicado! Trata-se da minha morte!

_ Não posso dizer, sinto muito.

_ Como não? Por quê?

_ Uma das regras é não contar o nome de seu assassino a um espírito, se ele não souber. O espírito poderia ter sede de vingança e isso traria muitas complicações.

_ Mas isso não é justo! Eu tenho o direito de saber!

_ Por favor, não insista!

_ Você já infringiu as regras antes! Por que não pode novamente?

Guto gritou agustiadamente:

_ Porque isso já custou a minha felicidade!

Comecei a chorar e ele me abraçou:

_ Não queira saber quem foi. É melhor não saber.

_ Por que tudo isso aconteceu? Por que eu tive que morrer? Por quê?

_ Não sei a resposta para suas perguntas.

Ajoelhei-me no chão e olhei para Guto:

_ E por que eu tive que destruir a sua felicidade?

_ Não se culpe! Fiz as minhas escolhas! O único culpado sou eu mesmo e não me arrependo. Se tivesse como voltar no tempo, eu faria tudo isso novamente.

O sentimento de gratidão tomou o lugar da rebeldia em mim. Eu já não podia fazer mais nada, a não ser me conformar.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Capítulo 7

Corri em direção ao lugar onde Guto estava caído. Não havia nenhum sinal das asas que, há pouco, haviam aparecido. Ele continuava chorando e se recusava a levantar:

_ Vá para a casa de Cadu! Ele acordou. Vá! Deixe-me sozinho!

Discutir com ele seria uma pésssima idéia, então segui sua ordem.

No caminho de volta, tive tempo o suficiente para imaginar o porquê de Guto ter se aproximado tanto, e a única resposta que obtive foi de que ele se confundiu, que o amor que tem por essa moça o fez enxergá-la em mim.

A chuva estava passando e, quando cheguei na casa de Cadu, vi-o sentado na calçada todo molhado. Ele olhava para o céu. Sentei ao seu lado e comecei a adimirar a lua que havia reaparecido por detrás das nuvens.

Os acontecimentos recentes me fizeram refletir sobre muitas coisas. O que eu havia feito enquanto viva e o que eu teria que fazer enquanto anjo. Nesse ponto me surgiu uma dúvida: e aquelas asas?

Fiquei tão espantada com a grandiosidade daquelas asas. Quando Guto voltasse, eu perguntaria se também as tenho.

A senhora Virgínia chamou Cadu e ele entrou. Passou pela sala, parou, olhou para Beatriz, que dormia no sofá, murmurou um pedido de perdão para a irmã e foi para o quarto. Pegou a toalha que a mãe havia deixado sobre a cama e entrou no banheiro. Tirou os sapatos, a camisa, a calça. Era a primeira vez que o via somente de cueca. Já o havia visto de sunga na piscina, então era parecido. Mas ele estava prestes a ficar nu e eu não sabia o que fazer.

_ Tem certeza de que quer vê-lo pelado?

Levei um susto com a presença repentina de Guto, que estava sentado na janela:

_ Quer mesmo vê-lo sem roupas?

Fiquei sem jeito:

_ Não...

_ Então saia daí e venha para perto da janela. Ele costuma trancar a porta do quarto, por isso deixa a porta do banheiro aberta. Se continuar aí já sabe!

Saí de perto da porta do banheiro:

_ E você? Está melhor?

Guto olhou para o lado de fora e apontou em direção à lua:

_ As nunvens saíram da frente e ela voltou a brilhar. Vê? Ela está linda.

Cheguei mais perto de Guto para poder ver a lua. Ele aproximou sua mão de meu rosto:

_ Só não é mais linda que você!

_ Não desconverse! O que aconteceu agora há pouco? Aquelas asas?

_ Asas de anjo! Todos têm. Você também deve ter.

_ Anjos têm asas?

Guto, rindo ironicamente:

_ Não! Só os pássaros! Aquilo era fruto de sua imaginção.

_ Se eu tenho, como faço para que apareçam?

_ Não se jogue pela janela tentando voar, pensando que elas aparecerão. Com o tempo você descobrirá como fazer com que apareçam.

_ E aquela luz?

_ Que luz?

_ A luz que te envolveu depois que suas asas apareceram.

_ Luz? Deve ter sido a iluminação de algum raio.

_ Não era iluminação de raio nem de nenhuma lâmpada da praça. Era uma luz que erradiava de você.

_ Duda, você está imaginando coisas. Não havia nenhuma luz. Eu não sou o sol para ter luz própria.

_ Mas...

_ Mas nada! Melhor fechar os olhos, pois Cadu está como veio ao mundo.

Dei um grito e tapei os olhos com as mãos. Guto ria:

_ Deve estar olhando por entre as frestas dos seus dedos.

_ Nem estou olhando na direção de Cadu. Estou olhando para você!

_ Pode olhar, ele já está com a calça do pijama.

_ E o grito?

_ Ninguém pode te ouvir. Não se preocupe.

_ Não o meu, mas o seu grito. O que você não podia fazer? Não podia me confundir com a garota de quem você gosta? É isso?

Guto desceu pela escada que estava ao lado da janela. O sobrado não era alto, mas a escada ultrapassava a altura do telhado. Desci logo após. Guto sentou-se no mesmo lugar onde Cadu estava minutos atrás. Ele olhava para a lua:

_ Não sei o que me aconteceu naquela hora nem porque fiz tudo aquilo. Desculpe-me se te assustei.

_ Não foi nada. Você parecia estar sofrendo.

_ Eu sempre estou sofrendo, Duda. Sempre.

Aproximei-me dele e olhei para a lua:

_ Dizem que ela também sofre.

_ Ela?

_ A lua! Ela sofre, pois é apaixonada pelo sol, o qual nunca poderá encontrar. É um amor impossível.

_ Igual ao meu amor.

_ Sim. E igual ao meu amor por Cadu, pois tornou-se impossível.

_ Sofremos como a lua.

_ Não. A lua está sozinha, pois mesmo entre tantas estrelas, é como se ela estivesse no meio de uma multidão, sem ninguém que conheça. E nós temos a amizade um do outro.

_ Amizade?

_ Claro! Somos amigos, não somos?

Guto sorriu:

_ Somos.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Capítulo 6

Eu nunca poderia imaginar que Cadu também freqüentava aquela praça, que ainda se lembrava do lugar onde nos conhecemos.

Gustavo percebeu minha surpresa:

_ Ele sempre veio aqui. Algumas vezes ficava te observando de longe. O dia em que você gravou seu nome na árvore, ele viu. Depois que você saiu, ele veio ver o que você tinha feito. Naquele momento, consegui perceber o quanto ele te amava.

_ Desde aquele dia?

_ Foi a tarde mais longa que passei nesse lugar. Ele só foi embora quando começou a anoitecer. Ficou em frente a árvore com um canivete na mão, mas foi embora sem gravar nada.

Cadu ficou sentado durante um bom tempo no mesmo banco onde eu ficava. Olhava para a árvore como se esperasse alguma resposta, como se esperasse que eu estivesse alí.

Pude entender porque ser um anjo é parecido com o inferno. Não ter o que fazer num momento como esse é algo doloroso.

Sentei ao lado de Cadu como se fosse uma tentativa de dizer que estou ao seu lado, mesmo que ele não pudesse me ver.

Uma folha da árvore caía, exatamente como no dia em que nos conhecemos. Nós dois queríamos pegá-la e nos esbarramos e caímos. Éramos crianças quando isso aconteceu. Cadu estendeu a mão e pegou a folha que caía na mesma direção. Dessa vez era ele quem ficaria com a folha.

Pegou um canivete que tinha no bolso, levantou-se e foi para a a frente da árvore. Seguí-o e vi que estava gravando seu nome embaixo do meu. Depois que terminou olhou em minha direção. Fiquei assustada, pois achei que podia me ver, mas segundos depois guardou o canivete e voltou para casa.

No caminho de volta ouvi as vizinhas dele conversando baixo:

_ Soube o que aconteceu?

_ Sim. Um rapaz tão jovem e uma coisa tão triste acontece. Até esqueceu de buscar a irmã no colégio.

_ Fiquei sabendo que ligaram para a mãe na clínica pedindo para irem buscar a Beatriz. Mas como pode? Ele deveria arrumar outra namorada!

_ Não seja tola! Não sabe nem o que diz.

Entramos na casa e a mãe de Cadu foi conversar com ele:

_ Não posso mais contar com você? Só pedi para que fosse buscar a Bia e nem isso você fez. Onde estava?

Ele passou pela mãe e foi entrando no quarto:

_ Andando por aí.

Sua mãe apareceu na porta:

_ Carlos Eduardo! Não esqueça que já passei por uma situação pior que a sua. E não fiquei me lamentando por aí.

Sem resposta alguma de Cadu, a senhora Virgínia foi fazer um lanche para Bia, que estava assustada.

Realmente, a situação dela havia sido pior. Viúva com dois filhos para criar e uma clínica para cuidar. Sem ajuda de ninguém, ela superou todas as barreiras, sem derrubar uma lágrima. Estranho, pois o casal Dantas era conhecido como um casal apaixonado. A senhora Virgínia é mesmo um mulher forte.

_ Duda! Vamos voltar para a praça. Ele já está dormindo.

_ Voltar? Por quê?

_ Lá explicarei.

Voltamos para a praça, já era noite. Guto subiu no banco:

_ Foi aqui que vocês se conheceram, aqui que ele percebeu que era apaixonado por você, aqui que vocês gravaram seus nomes numa árvore. Vê? A paixão é linda, mas só a amor transcende barreiras como o tempo, a distância, a morte.

Sentou-se e começou a chorar.

A dor dele, de gostar de alguém que está vivo, de não poder encontrar essa pessoa nem após a morte, devia ser uma dor insuportável.

Eu sabia pouco sobre ele. Pude perceber que era alguém forte, mas com seus momentos de fragilidade. Guto era alguém muito especial, que arriscou seu destino para me ajudar. Ele tinha feito mais que qualquer pessoa fez por mim e eu não podia fazer nada para ajudá-lo. Sentei ao seu lado e o abracei:

_ Não fique assim.

Pude ver a lua em seu olhar. As lágrimas davam um brilho diferente aos seus olhos. Retribuiu o abraço. O calor de seus braços, a respiração ofegante em meu ombros era algo indescritível. Não era um simples abraço entre amigos, nem mesmo um daqueles de alguém da família. Era mais que isso, um abraço que não tem significado.

Comecei a chorar também e, naquele momento começou a chover.

Dois anjos chorando sob a chuva de verão, numa noite de lua cheia. Era como se os céus estivessem compartilhando suas lágrimas com as nossas.

Guto olhou profundamente em meus olhos. As gotas da chuva e as lágrimas haviam se misturado em seu rosto. Ele colocou sua mão na minha nuca e aproximou meu rosto do dele e murmurou:

_ Eu não posso fazer isso.

_ Fazer o que?

_ Não posso!

Afastou-se de mim e algo surpreendente aconteceu. Asas grandes e do mais puro branco saíram de suas costas. Uma luz o envolveu e Guto gritou:

_ Eu não posso!

Um trovão respondeu seu grito angustiante, as asas desapareceram, nuvens escuras esconderam a lua. Guto estava caído no chão.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Capítulo 5

Rever Cadu e não poder me comunicar com ele foi a coisa mais difícil que me aconteceu. Estar em sua frente e ele não poder me ver, poder ouví-lo e ele não, jamais poder tocá-lo. Tão perto e tão longe ao mesmo tempo. Conviver com essa grande separação era algo que eu deveria aceitar.

Muita coisa havia mudado, ele já não era mais aquele homem alegre e de sorriso cativante.
Depois da minha morte, tornou-se uma pessoa séria, que não saía mais de casa.

_ Guto, o que posso fazer para que ele volte a ser o mesmo de antes?

_ Ele jamais voltará a ser o Cadu que você conhecia. A dor o acompanhará até o fim de seus dias. Faz parte do amadurecimento.

_ Amadurecer é se tornar uma pessoa assim?

_ Nem sempre. Mas ele perdeu uma pessoa muito importante em sua vida e isso não é fácil de se lidar. Há os que conseguem tocar sua vida em frente, aparentando continuar como eram, mesmo sofrendo, mas para Cadu está sendo difícil. Veja! Percebe a dor em seu olhar?

_ Não há mais o brilho que tinha.

_ Também pode ser revolta!

_ Revolta de ter me perdido?

_ Não! De não ter te beijado nenhuma vez!

Guto começou a rir incontrolavelmente e eu é que fiquei revoltada:

_ Não ria! Isso não é engraçado! É triste o fato de duas pessoas que se amam nunca terem se beijado e uma delas ter morrido.

_ Não é triste. É idiota!

Guto continuava rindo:

_ Vocês sempre se amaram, mas viviam brigando. Você ainda foi inteligente, pois estava decidida a se declarar, mas ele só se declarou, porque viu o quanto de tempo ele desperdiçou.

_ Pare de rir! Isso não é engraçado! Parece até que nunca se apaixonou. Vai dizer que quando estava vivo não foi apaixonado por alguém?

Guto parou de rir imediatamente:

_ Você não sabe nada sobre mim! Eu fui, ou melhor, ainda sou muito apaixonado por uma garota.

_ Não precisa ficar bravo. Não quis ofender.

_ Tudo bem. O meu caso sim é triste. Mesmo eu sendo apaixonado por ela, não posso me declarar.

_ Depois diz que eu e Cadu que somos idiotas. Você também é. Por que não se declarou?

Guto ficou triste:

_ Por que...

_ Ela está viva. É isso?

Ele se espantou, ficou sem jeito e confirmou movendo a cabeça positivamente.

Um amor proibido. A história de Guto, realmente, era triste.

_ Ela te conheceu enquanto você estava vivo?

_ Não. Eu me apaixonei quando já era um anjo.

_ Entendo. Não há nada que possa ser feito, mas um dia ela irá morrer e vocês poderão ficar juntos.

_ Não seja tola! Isso é impossível. Meu destino e o dela são diferentes. Mesmo que ela morra, nunca ficaremos juntos. Isso já está estabelecido.

_ Sua punição, não é mesmo? Por minha culpa vocês não poderão ficar juntos?

_ Não! Isso não é sua culpa. Era para ser assim.

_ Eu a conheço? Deve ser uma pessoa próxima ao Cadu. Alguma amiga? Uma das primas dele?

_ Duda, não me faça mais perguntas sobre esse assunto. Por favor.

_ Desculpe-me. Eu não deveria ficar tocando num assunto tão delicado.

_ Tudo bem. Agora vá para a frente de Cadu e tente influenciá-lo.

_ Influenciá-lo? Como?

_ Você é um anjo. Anjos influenciam seu protegidos. Sua missão é perceber o que de errado irá acontecer e tentar avisá-lo através de sua influência.

_ Isso eu entendi, mas como faço para influenciá-lo?

_ Veja! Ele está atrasado para ir buscar sua irmãzinha na escola. Faça ele perceber o atraso. Tente conversar com ele.

_ Conversar?

_ Sim, conversar. Fale com ele, pois mesmo que não possa te ouvir, ele pode sentir a presença de alguém na forma de pressentimentos. Concentre-se e tente.

Sentei na cadeira próxima a cama na qual Cadu estava sentado. Olhei profundamente em seu olhos:

_ Cadu, você tem que ir buscar a Beatriz!

Guto começou a rir:

_ Não adianta você gritar, pois ele não vai te ouvir. Concentre-se e tente novamente.

_ Do jeito que você fala, parece tão fácil.

_ Não é fácil. Precisa se concentrar direito.

Olhei para Cadu:

_ Cadu, a Bia está te esperando.

Ele se levantou, olhou para o relógio no criado mudo, pegou uma blusa no guarda-roupa e saiu.

_ Consegui!

_ Não, você não conseguiu. Ele está indo para outro lugar.

_ Outro lugar? Como você sabe?

_ Porque sou um anjo. Pelo visto, vai demorar para que você saiba o que está acontecendo com seu protegido. Mas não fique aí parada! Vamos atrás dele!

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Capítulo 4

_ Anjo? O Quarto destino é ser anjo? Eu vou ser um anjo? Só pode ser brincadeira!

_ Senhorita Maria Eduarda não estamos em um lugar onde se possa fazer brincadeiras.

_ Certo! Eu morri, um homem que nunca vi na minha vida veio falar comigo mesmo eu estando morta, vim parar nesse lugar estranho, dizem que vou ser um anjo e isso não é brincadeira. Deve ser sonho. Isso! Eu não morri e estou sonhando.

_ Sonhando durante mais de dois dias?

_ Sim! Eu levei um tiro e por isso estou num hospital. Podem ter me sedado e isso pode ser um sonho.

_ Como deixam um fantasma vir para a reunião?

Aquele homem parecia estar bravo, gritando para os outros espíritos:

_ Só são permitidos espíritos aqui! Por que esse fantasma veio?

_ Eu não sou um fantasma! Sei que estou morta, mas isso tudo é novo pra mim.

_ Tudo, de agora em diante, será novo para você, mas não se preocupe, há alguém que irá te ajudar.

Alguém se aproximou e, finalmente, pude entender:

_ Então você é um espírito. Isso explica muita coisa.

_ Vocês já se conhecem?

_ Sim! Eu estava sentada num banco da praça e ele veio dizer para me apressar.

Gustavo estava preocupado:

_ Senhor, não pode indicar outro? Tem que ser eu?

_ Você é o mais indicado, conviveu com ela enquanto estava viva.

_ Conviveu comigo? Mas eu nunca o vi antes.

_ Senhorita, ele foi um anjo e esteve muitas vezes ao seu lado.

_ Anjo? Por isso disse que me aconselhou. Agora compreendo, ele era meu anjo.

_ Não, eu não era seu anjo, era o de Cadu.

_ O que?

_ Isso que você ouviu! Eu era o anjo de Cadu e, por ter influenciado na vida de outro além de meu protegido, serei substituído.

Naquele momento fiquei sabendo que Gustavo havia desobedecido uma regra, a de não interferir na vida de outro que não seja a de seu protegido. Um conselho que não segui e que custou seu destino.

_ Mas ele não interferiu! Eu morri mesmo assim!

_ Senhorita, as regras devem ser seguidas.

_ Regras! Regras! Não basta ter que seguir regras durante a vida?

Gustavo puxou-me pelo braço:

_ Não discuta! Tenho que lhe mostrar como é ser um anjo e, depois, saberei qual será meu destino. Venha!

Enquanto saíamos, aquele senhor acenou:

_ Desejo-lhes boa sorte, Duda e Guto!

Fiquei espantada:

_ Guto?

_ Acha que só os vivos têm apelidos?

_ Não! Não é isso.

_ Então é o que?

_ Gostei do seu apelido!

Ele sorriu. Um sorriso mais cativante que o de Cadu:

_ Não sei o que tem de diferente em meu apelido. É tão comum chamar um Gustavo de Guto.

_ Gostei e pronto! Mesmo que seja comum.

_ Boba como sempre.

_ Você me viu muitas vezes, não é?

_ Todas as vezes que esteve com Cadu.

_ Deve ser legal ser um anjo.

_ Sim. Proteger alguém é legal, mas a jornada de um anjo não é fácil. O nosso destino é parecido com o inferno, a única diferença é que podemos interferir na vida dos vivos. Mas é proibido interferir na vida de outro que não seja seu protegido.

_ Por que me aconselhou? Meu anjo poderia ter feito isso. Espera! Quem era meu anjo? Onde está?

_ Seu anjo?

_ Sim, meu anjo! Quero conhecê-lo.

_ Eu não deveria falar sobre isso, mas você acabará sabendo mais cedo ou mais tarde. Seu anjo é um rebelde.

_ Rebelde? Como assim?

_ Ele se rebelou contra as regras. Cansou de ser um anjo e por isso não havia ninguém te protegendo na apresentação.

_ Por isso levei um tiro, mas não morri naquela hora. Como?

_ Eu tentei te proteger e por isso você viveu mais uma semana, porém a minha influência não foi suficiente.

_ Então você não só me aconselhou, também me protegeu.

_ Eu não consegui seguir as regras vendo que você poderia morrer, pois estava sem um anjo. Não era justo!

_ Obrigada.

_ O que? Você morreu. Por que me agradece?

_ Por que você me deu a oportunidade de morrer feliz.

_ Feliz?

_ Pude saber que Cadu sempre me amou. Obrigada.

_ Não me agradeça. Era meu dever.

_ Não era seu dever! Você desobedeceu as regras e agora será punido por isso!

_ Você não entende, era meu dever, porque...

_ Por quê?

_ Nada! Deixe esse assunto para lá.

_ Certo! Mas o que aconteceu com meu anjo? Ele foi punido?

Gustavo sorriu ironicamente:

_ Comentam que ele teve o quinto destino.

_ Há um quinto destino? Qual é?

_ Ninguém sabe, é apenas uma lenda. Como ainda não o encontraram, dizem que ele teve o quinto destino. Mas é uma brincadeira, só existem quatro destinos.

A curiosidade não me deixaria em paz. Minha missão, além de proteger Cadu, seria descobrir mais sobre essa lenda.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Capítulo 3

Levei minha vida inteira, não que tenha sido longa, pois sou jovem, para me declarar e quando estou prestes a fazer isso, levo um tiro. Depois tenho ele na minha frente dizendo que sempre me amou e que iríamos ser felizes e isso acontece. É revoltante!

Lembro-me da apresentação e acho a situação engraçada. Sim, engraçada! Muitos pensaram que o sangue era algo da cena, mas um grande tumulto ocorreu quando Cadu começou a gritar pra que chamassem uma ambulância.

Cirurgia, espera, angústia, recobrei minha consciência, ele se declarou e eu morri. Já disse que isso é revoltante?

Até esse momento, falei da minha vida e não me apresentei. Agora que vou falar da minha morte devo dizer meu nome: Maria Eduarda Andrade. Sim! Minha morte, não como ela ocorreu, pois já falei como foi, mas do que acontece depois, um tipo de vida pós morte. Quanto ao meu nome ser um tanto parecido com o de Cadu, só poderia ser força do destino. Por quê? Explicarei mais tarde.

Não caminhei em direção à luz nem acordei no paraíso, simplesmente continuei alí. Geralmente os mortos ficam alguns dias entre os vivos até conseguirem entender o que aconteceu realmente, ou seja, até compreenderem que estão mortos.

Não somos fantasmas, esse termo é utilizado para pessoas que não entendem que já morreram e pensam que ainda estão vivas. Somos simplesmente espíritos. Não atravessamos paredes e ninguém pode nos ver, mas podem nos sentir. São os famosos arrepios na espinha. Conversamos com outros espíritos e passamos a saber o segredo da vida. É algo que os vivos jamais compreenderiam, apesar da simplicidade. Uma resposta para as milhares de perguntas que fazemos a nós mesmos durante a vida.

Não suportei ficar alí vendo Cadu chorar, então fui para meu refúgio. Um banco, numa praça de frente para uma grande árvore. O lugar onde nos conhecemos, onde eu gravei meu nome e futuramente eu gravaria o nome de Cadu, mas acho que isso não acontecerá.

Fiquei dois dias naquele lugar, vendo as pessoas que passavam, até que algúem se aproximou:

_ Vai continuar sentada aí?

Fiquei parada, pois ele só poderia estar falando com outra pessoa, afinal eu era um espírito.

_ Não vai me responder Maria Eduarda?

Me espantei. Como alguém podia estar me vendo e saber meu nome?

_ Só porque está morta acha que tem todo o tempo do mundo?

_ Quem é você? Como sabe meu nome? Como pode me ver?

_ Calma! Uma pergunta de cada vez. Meu nome é Gustavo, sempre estive te observando.

_ Sempre?

_ Sim. Não acredito que não escutou meus conselhos e foi para aquela apresentação.

_ Hã?

_ Eu sabia o que aconteceria e te aconselhei a não ir, mas você não se importou, só estava pensando nele e esqueceu de pensar em si mesma.

_ Como assim? Aconselhou? Isso não é possível!

_ Claro que é possível. Você teve um mal pressentimento e mesmo assim foi se declarar para ele.

_ Como sabe disso?

_ Eu já disse! Estive te observando o tempo todo e tentei te ajudar. Agora se apresse, a reunião está para começar.

_ Reunião?

_ Acha que vai ficar aqui por toda a eternidade? Você está morta, mas não quer dizer que sua missão acabou.

_ Missão?

_ Pare de me fazer perguntas! Você descobrirá tudo, então se apresse.

Fui meio que teletransportada para uma outra dimensão. Isso parece ficção científica, mas é o que acontece. É uma espécie de mundo paralelo. Nesse lugar, há um espírito chefe que entrevista e faz uma pesquisa sobre a vida de cada um de nós. Muito estudo, muita conversa, muita espera. Depois nos resta apenas quatro destinos.

O primeiro é o céu. Simplesmente o lugar perfeito com que muitos sonham durante a vida. É o paraíso sem sombra de dúvidas. Não sei como é, pois não conheço. Sei que é um lugar ótimo devido aos comentários dos outros espíritos.

O segundo é o inferno, que é continuar vivendo entre os vivos sem poder se comunicar com outros espíritos, sem poder interferir em nada. É um tipo de castigo, mas não é eterno. São avaliadas as ações e segundo o resultado de uma conta, que eu não entendi, chega-se a um determinado número de anos que o espírito deve ficar na Terra. Após cumprida essa espécie de pena, são reavaliados e podem ser encaminhados a um dos outros destinos, até mesmo o inferno novamente.

O terceiro destino é o CREM, Centro de Reabilitação para Espíritos Maus. A primeira vez que ouvi esse nome achei um tanto engraçado e pensei que pudesse ser uma brincadeira, mas é a mais pura verdade. Há espíritos que cometeram coisas más durante a vida, mas não são punidos com o inferno e ganham a oportunidade de se redimirem e irem para o céu. São os que fizeram coisas não tão ruins.

Sobre o último destino é de que terão mais conhecimento, pois foi o meu.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Capítulo 2

Fui levada para a clínica da família de Cadu, que fica a dois quarteirões do lugar da apresentação, pois levei um tiro pelas costas que atravessou e foi parar no piano, sem nem raspar no Cadu.

Não sei muito sobre armas, mas havia um silenciador, pois somente isso explica o fato de ninguém ter ouvido o disparo.

Nunca acreditei quando ouvia comentários de como uma vida toda passa diante dos olhos, mas depois de levar um tiro e ver que minha existência estava por um fio, comecei a lembrar de todos os fatos importantes. Na maioria deles, Cadu estava presente.

Recordei-me da minha festa de quinze anos, que minha mãe me obrigou a fazer. Eu queria uma festa simples, sem grandes detalhes. Mas o sonho que minha mãe não havia realizado, eu deveria realizá-lo. Uma festa de debutante com tudo que havia direito. A decoração, que havia ficado a cargo de minha mãe, estava impecável. O sorriso constante, durante o preparo da festa, era mais que suficiente para que eu visse que ela estava feliz.

Cadu estava de fraque e na hora da valsa disse que eu parecia uma princesa. Achei aquele elogio a coisa mais maravilhosa do mundo, até que ele continuou:

_ Você está parecendo uma princesinha, mas não pode abrir a boca, pois acabará com o conto de fadas.

Fiquei revoltada e ele continuou:

_ Se você falar qualquer coisa, por mais educada que seja, o conto de fadas acabará, pois você é uma gata borralheira.

_ Gata borralheira? O que quer dizer com isso?

_ Que você não é uma princesa de verdade, mas é gata.

Ele riu, como se o que havia dito não fosse um elogio, mas um simples trocadilho.

_ E o que está fazendo aqui, dançando com a gata borralheira? Vá procurar uma princesa!

_ Princesas são muito chatas, com toda aquela perfeição. Prefiro as esquentadinhas como você.

Naquele momento, fiquei vermelha e o abracei para que não pudesse ver minha reação.

_ Eu disse que prefiro as esquentadinhas, mas não disse que te amo. Por que está me abraçando?

Ele tentou ver meu rosto, mas não podia deixar que visse, ainda mais depois do que havia dito, então saí de perto dele.

_ Volte aqui Duda! É só uma brincadeira!

Puxou-me pelo braço e num abraço forte:

_ Somos amigos desde que me conheço por gente. Não quero que nada acabe com essa amizade. Você é como se fosse uma irmã para mim.

Aquilo era a última coisa que queria ouvir naquele momento. Ser considerada como melhor amiga sim, mas irmã acabava com qualquer esperança minha.

Pude ouvir o choro de meus pais enquanto conversavam com o médico. A seriedade tomou o lugar da lágrimas no rosto de Cadu. Eu não podia me mexer e um sentimento horrível tomou conta de mim. O médico poderia estar dizendo que eu não poderia mais andar ou que eu passaria por outra cirurgia, talvez mais grave, com sérios riscos.

Já havia se passado uma semana e meu estado não havia melhorado.

Numa noite, tive um pesadelo terrível. Eu falava com o Cadu, mas ele não me respondia. Era como se ele não pudesse me ouvir nem me ver. Eu gritava seu nome, querendo avisá-lo que algo de ruim aconteceria. Acordei e gritei o nome dele.

Ele, que estava ao lado da cama, se surpreendeu, pois, após uma semana deitada, sem nenhuma reação, somente com os olhos abertos, eu estava sentada na cama e gritando. Deu-me um abraço e pediu para que eu me acalmasse.

_ Duda! Você está bem! Tudo vai voltar ao normal! Nós, ainda, vamos nos casar, ter filhos! Seremos felizes! Eu te amo!

Ele estava alí, na minha frente, chorando e dizendo que me amava. Era o momento pelo qual eu havia esperado por tanto tempo.

_ Eu sempre te amei, mas nunca tive coragem de me declarar. E agora, quando quase te perdi, vi o quanto idiota eu fui.

Algo estranho aconteceu, senti como se eu estivesse saindo do meu corpo. Enxuguei as lágrimas de Cadu e com a mão em seu rosto disse:

_ Obrigada por me fazer feliz durante todos esses anos e mais ainda nesse momento. Eu também te amo, mas...

_ Mas o que? Duda! Fale comigo! Duda!

_ Desculpe. Prometo que farei de tudo para que seja feliz. Essa é minha promessa!

Cadu, chorando, me abraçou e todos na clínica puderam ouvir seu grito angustiante:

_ Não!

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Capítulo 1

Tudo começou quando, numa tarde, resolvi contar ao Carlos Eduardo que eu era apaixonada por ele. Eu sabia que ele iria ao evento Música & Arte, pois ele não seria louco de desperdiçar a oportunidade de rever seus amigos do colegial.

Comecei fazendo uma tremenda bagunça no meu quarto. Revirei meu guarda roupa, fiz mil combinações possíveis de roupas e sapatos. Acabei decidindo pela blusa verde estampada com um anjinho, que eu havia comprado durante a última viagem que fiz com o Cadu.

Realmente é intrigante sair com amigos de infância para fazer compras. Um namorado certamente falaria que qualquer roupa que eu vestisse teria ficado bem, mesmo que fosse aquela blusinha rosa choque cheia de lantejoulas douradas, com miçangas coloridas. Tudo bem se fosse para uma festa a fantasia ou estivéssemos na época do Carnaval. Mas o Cadu parecia um fresco falando qual cor combinaria com meus olhos. Ele realmente é insuportável na hora de escolher uma roupa, pior que mulher quando só pode comprar uma peça e faz a vendedora mostrar cada blusinha que existe na loja e acaba por não levar nenhuma. Se eu fosse uma vendedora e ele fizesse isso comigo acho que virava um tapa na cara dele, mesmo com o risco de perder o emprego.

A blusa verde, a saia jeans, a sandália de tirinhas, o colar com pingente de esmeralda que ganhei de uma amiga. Arrumei o cabelo, soltei a franja. Falando em franja, eu jamais a deixo solta, sempre prendo com alguma presilha ou arco, mas nesse dia eu tinha que ir do jeito que ele acha que fico bonita.

Cheguei ao lugar um pouco atrasada. A banda do Paulinho estava se apresentando. Eles continuam tocando aquela música que ele fez pra Maria Fernanda, quando decidiu pedí-la em namoro. Uns tempos atrás descobri que eles se divorciaram. Nem sabia que tinham se casado.

Ele estava lá, lindo como sempre, com seu sorriso simpático que me cativa. Atravessei por meio da multidão na frente do palco e cheguei ao barzinho. Pedi um refrigerante e fiz de conta que não o vi.

_ Você devia pedir um diet!

_ E você deveria fazer academia! Engordou desde a última vez que te vi.

_ Engordei? Você é louca ou o que? Estou o mesmo de sempre. A Maria Fernanda até me disse que emagreci.

Fiquei sem ter o que falar. Realmente ele estava mais magro e eu brinquei dizendo que ele estava gordo, mas, como sempre, brincadeiras relativas ao físico dele, ele sempre levaria a sério.

Terminei meu refrigerante sem dizer nada a ele, me virei e fui conversar com a Aninha. Percebi que ele ficou com uma cara de susto em frente ao fato de tê-lo ignorado, mas fingi que nem me importava.

Sempre parecemos gato e rato, com nossas brigas freqüentes. Quando éramos adolescentes, ele me jogou dentro da piscina que havia na antiga casa dele. Ele não acreditava que eu não sabia nadar e quase teve um treco quando percebeu que eu não sabia mesmo. Minha vontade era de matá-lo, mas a única coisa que eu podia fazer era tossir, porque engoli muita água.

_ Vou fazer respiração boca a boca!

_ Jamais! Morro afogada, mas não deixo você me beijar.

_ Beijar? Quem aqui falou em beijar?

_ Conheço muito bem o senhor Carlos Eduardo Dantas!

_ Que morra então!

Levantei, dei um chute na canela dele, saí correndo e gritando:

_ Se eu morrer algum dia, você vai sentir minha falta senhor Carlos Eduardo! Serei obrigada a ficar aqui te assombrando.

_ Se você morrer eu danço em cima do seu caixão!

E, depois desse ocorrido, ficamos um mês sem nos falar.

Dessa vez, Cadu, preocupado, veio em minha direção dizendo que não se importava de ser ignorado. Ficou com uma cara triste.

Sempre foi uma doçura de pessoa quando sabia que estava errado, fazendo caras e bocas para conseguir arrancar um perdão meu.

_ Tudo bem! Você não está gordo nem eu preciso de refrigerante diet.

_ Light!

_ Você não tem jeito mesmo.

Ele abriu aquele sorriso que me deixa sem jeito.

_ Você trouxe um vestido vermelho?

Eu realmente havia me esquecido que Cadu havia conseguido me convencer de me apresentar com ele.

_ Eu sabia que você não se lembraria, cabeça de vento como você é, então trouxe este da minha irmã.

_ Cabeço de vento é você! Trouxe as rosas?

_ A champagne também!

_ O senhor está mudando! Não se esquece mais de suas responsabilidades. Mamãe deve estar orgulhosa.

_ A sua deve estar decepcionada.

Não sabia o que falar e mostrei a língua pra ele.

_ A mesma criança de sempre. Está com essas roupas de mulher, mas se comporta como uma menina de sete anos de idade.

Fiz uma careta, peguei o vestido e fui para o banheiro me trocar.

O salão estava cheio e senti um frio na barriga quando espiei e percebi o silêncio do público esperando que a apresentação começasse.

Peguei o rascunho e li pela última vez:

“Cena: um vestido vermelho, um salão, um piano, rosas, champanhe, uma discussão, barulho de chuva. Antes de ela sair, ele põe as rosas sobre a mesa, toma um pouco de champanhe enquanto afrouxa a gravata, caminha em direção ao piano. Ela escuta os passos que se distanciam em vez de estarem indo atrás dela, então ela pára. Uma música começa a tocar no piano. Não há mais ninguém no salão. Ela, na verdade, não quer ir embora. Ele percebe que ela ainda está lá e continua tocando. Ela começa a cantar, se vira e atravessa o salão, indo em direção ao piano. Uma troca de olhares. A música termina, ele se levanta, ela se vira, uma nova troca de olhares, toque das mãos, sorrisos, a aproximação, ele a toma em seus braços, olhos fechados e... a luz se apaga.”

Decidi que no momento em que as luzes fossem apagadas eu o beijaria e me declararia finalmente.

A apresentação ia começar e estava terminando de me ajeitar quando Aninha me empurrou para o palco. Fiquei espantada com o figurino de Cadu, todo arrumadinho com o terno que era de seu pai. A cena se prosseguiu e quando as luzes se apagaram, a platéia gritou que queria ver a cena do beijo.

A luz voltou e um silêncio horrorizante tomou conta do salão.

Não o beijei, estava branca e quando olhei para baixo percebi o que havia acontecido. Coloquei as mãos sobre a barriga e o sangue começou a escorrer. Caí, enquanto Cadu me olhava com lágrimas nos olhos. Seu olhar me doía no fundo da alma. Tudo o que pude dizer naquele momento foi:

_ Eu te amo!