domingo, 13 de julho de 2008

Capítulo 10

_ É estranho estar aqui.

Repeti essa frase, pelo menos umas três vezes enquanto Guto e eu acompanhávamos o Cadu no cemitério.

Todo ano, Cadu vai ao cemitério no dia em que seu pai comemoraria seu aninversário.

Guto me puxou pelo braço, enquanto eu caminhava sem rumo por entre os túmulos:

_ Não seja boba! Até parece que nunca esteve num cemitério antes.

_ Somente uma vez e foi quando o senhor Dantas morreu.

_ Eu me lembro desse dia. Você esteve ao lado de Cadu todo o tempo. Ofereceu seu ombro para que ele chorasse a morte do pai.

Respirei fundo enquanto via Cadu olhando para o túmulo do pai.

_ Nós éramos muito jovens ainda. Perder um pai não deve ser nada fácil. Ainda mais da forma como foi.

_ Aquele assassinato foi realmente muito chocante. Uma cena nada fácil de se esquecer.

_ Você viu?

_ Duda, eu vi tantas coisas.

_ Mas como é capaz? Você não deveria estar perto do Cadu?

_ Eu estava.

_ Como isso? Cadu estava na casa dele quando o pai foi morto no centro da cidade. Não é possível!

_ Duda, vou te contar o lado da história que ninguém conhece. Ninguém vivo.

Escutei horrorizada cada uma das palavras sobre o assassinato do senhor Dantas.

Um médico de prestígio que foi brutalmente assassinado. Até então pensei que sua morte havia sido em vão, mas depois de saber o que realmente aconteceu, penso que o pai de Cadu morreu como um herói.

O assassino era um de seus pacientes, que havia perdido o filho numa cirugia feita pelo senhor Dantas, ou melhor, pelo doutor Dantas. O rapaz havia chegado com traumatismo craniano após um acidente de automóvel. O rapaz estava dirigindo alcoolizado.

A morte era inevitável, mas o doutor Dantas não iria desistir de um paciente, por mais impossível que sua recuperação parecesse.

O estado era grave demais e o jovem faleceu na mesa de cirurgia. Era a primeira vez que o doutor perdia um paciente.

Foi avisar o pai do rapaz e recebeu um soco como agradecimento. Ele o culpou pela morte do filho e disse que se vingaria. Olho por olho, dente por dente.

Dois dias depois, aquele senhor apareceu na frente da casa de Cadu. O doutor chegava da clínica no momento e estranhou a situação. O homem se aproximou e disse em voz baixa que não iria matá-lo, mas sim que iria matar Cadu.

Naõ adiantaram as tentativas de diálogo, mas a troca de vidas sim. A vida dele pela vida de Cadu.
Cadu estava dormindo, então Guto decidiu acompanhar os dois que haviam resolvido conversar longe dalí.

O doutor não esperava que aquele senhor possúia uma arma e quando sentiu os dois tiros perfurando seu corpo, percebeu que acabara de salvar a vida do filho.

Suas últimas palavras foram:

_ Que haja alguém que proteja meu filho.

Guto se aproximou e disse:

_ Não se preocupe. Essa é minha missão.

Naquele momento o doutor sabia que estava morto e disse que não queria permanecer por muito tempo alí. Guto explicou o que aconteceria dalí em diante e o senhor Dantas pediu para que pudesse se despedir de Cadu.

No meio do caminho decidiu que não queria se despedir, pois isso era sofriemento demais.

Atualmente o senhor Dantas é anjo de um órfão, o filho do rapaz que morreu na mesa de cirurgia.
Cadu estava indo embora quando virei em direção ao Guto e perguntei algo que não fazia sentido:

_ E o anjo?

_ O que?

_ Ele não deveria estar protegendo o senhor Dantas.

_ Deveria estar.

_ Não estava?

_ Não sei.

_ Como não sabe? Você não o conhece?

Guto riu:

_ E você conhece algum outro anjo fora eu?

Eu já havia pensado nisso antes. E os outros anjos? Onde estavam? O que faziam?

Guto me explicou que nós anjos não podemos ver outros como nós. Que essa é uma das regras. Eu poder vê-lo era uma exceçao dada aos anjos aprendizes.

Cada um tem um anjo. E eles estão por toda parte. Vivem sem se comunicar com ninguém, vivem somente em função de seus protegidos. Guto esteve solitário por todo esse tempo e logo eu estaria solitária.

Ser um anjo e o inferno são destinos muito parecidos, mas a recompensa de proteger alguém é muito grande. A felicidade no olhar de seu protegido é algo indescritível.

Um comentário:

Anônimo disse...

eu quero saber quem é meu anjo XD

ahh e quem matou a Duda foi o Paulo ou a Aninha XD