Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

Capítulo 11

Passados os dias de chuva, a mãe de Cadu decide passar o fim de semana na casa de campo.

Desde a morte do pai de Cadu, a família não viajava mais. Esse fim de semana seria uma tentativa de retirar Cadu daquele estado emocional alterado pelos últimos acontecimentos.

Guto, como sempre, sentado na janela, olhando para a árvore na frente da casa, perdido em seus pensamentos.

Com esses dias de convivência com ele, pude perceber muitos pontos de sua forte personalidade: sempre disposto a ajudar, nunca perdendo seu sarcasmo, com muitos momentos de um silêncio misterioso e aquele olhar de alguém que sofre, que contradiz o sorriso constante.

Aproximei-me dele e me apoiei sobre a janela. Ele me olhou e sorriu:

_ Faz tanto tempo que não vou para o campo.

_ Só fui uma vez para lá, enquanto o pai de Cadu ainda estava vivo. Era a festa de 16 anos de Cadu.

_ Eu me lembro. Você estava com um vestido verde, o mesmo que usou no dia em que Cadu te jogou na piscina.

_ O dia da piscina! Fiquei com tanta raiva naquele dia.

_ Você prometeu que voltaria para assombrá-lo. Isto foi o pacto final para que você um dia se tornasse seu anjo.

Promessas feitas em vida para serem cumpridas depois da morte são pactos que só podem ser quebrados se a pessoa a quem fez a promessa morrer antes.

Guto descia pela escada:

_ Mas o pacto inicial foi a escolha dos nomes de vocês.

O destino estava traçado. Tínhamos nomes parecidos, porque um dia um seria anjo do outro. Guto era um anjo temporário igual ao meu. Seriam substituídos quando um de nós morrêssemos.

Demorei para entender que eu substituir Guto não era sua punição. Eu deveria levar mais tempo para ser um anjo. A verdadeira punição era eu me tornar anjo adiantadamente. A primeira das punições, pois a outra seria seu próximo destino.

Desci pela escada e fui sentar ao lado de guto na calçada:

_ Guto, tenho uma curiosidade e sei que você pode tirá-la.

_ Você realmente quer saber sobre a lenda, não é?

_ Por que você sempre faz isso?

_ Isso o que?

_ Saber o que vou perguntar. Isso me irrita às vezes.

Guto começou a rir:

_ Você vai começar a reclamar ou quer saber sobre a lenda?

_ As duas coisas!

Ele se levantou e me estendeu a mão:

_ Levante-se e vamos!

_ Vamos para onde?

_ Para a praça.

_ Por quê?

_ Chegando lá explicarei e contarei tudo o que quer saber sobre a lenda do quinto destino.

Levantei-me e fomos para a praça, sentei num banco e olhei para Guto:

_ Então, por que me trouxe até aqui?

_ Está vendo aquela mulher sentada no banco próximo ao lago?

_ Sim, mas o que tem ela a ver com o que tem a me dizer?

_ Há um boato de que ela já esteve entre nós.

_ Entre nós? Como assim?

_ Que ela já foi um espírito.

_ Ela já esteve morta? Mas como? Não é possível.

_ Os boatos são antigos, mais ouvi dizer que ela apareceu nessa praça. E nunca ninguém tinha ouvido falar nela.

_ Mas se ela já esteve viva, devia ter família, conhecidos, então ela não apareceu assim do nada.

_ Essas são as mesmas indagações que fiz, mas tudo é possível. Ela pode ter voltado a vida num lugar totalmente diferente, ou num tempo muito posterior, em outro corpo. Há várias possibilidades.

_ Mas...

_ Mas nada. Isso é apenas uma lenda e nós não temos como saber.

_ A mulher está alí. É só perguntar!

_ Duda! Somos anjos, lembra? Perguntar como?

A descepção em saber que o lendário 5º destino continuaria sendo um mistério me deixou com raiva:

_ Se tudo é possível como você mesmo disse, por que não posso ter a capacidade de me comunicar com quem está vivo? Se posso influenciar Cadu a fazer o que é certo, por que não posso falar com aquela mulher?

_ Você pode.

Guto disse isso e começou a caminhar em direção à árvore. Corri atrás dele:

_ Posso? Como?

_ Você poderá quando eu não estiver mais aqui.

_ Como assim?

_ Quando você não precisar mais de mim. Quando eu já tiver a minha punição por completa.

Isso queria dizer que quando eu tivesse a capacidade de proteger o Cadu, sem a ajuda de Guto, eu teria o dom de me comunicar com os vivos, mas somente poderia fazer isso em casos extremos e o único com quem eu poderia me comunicar seria meu protegido. Se eu infringisse essa regra seria punida e a idéia de me afastar de Cadu era inaceitável.