quinta-feira, 12 de junho de 2008

Capítulo 6

Eu nunca poderia imaginar que Cadu também freqüentava aquela praça, que ainda se lembrava do lugar onde nos conhecemos.

Gustavo percebeu minha surpresa:

_ Ele sempre veio aqui. Algumas vezes ficava te observando de longe. O dia em que você gravou seu nome na árvore, ele viu. Depois que você saiu, ele veio ver o que você tinha feito. Naquele momento, consegui perceber o quanto ele te amava.

_ Desde aquele dia?

_ Foi a tarde mais longa que passei nesse lugar. Ele só foi embora quando começou a anoitecer. Ficou em frente a árvore com um canivete na mão, mas foi embora sem gravar nada.

Cadu ficou sentado durante um bom tempo no mesmo banco onde eu ficava. Olhava para a árvore como se esperasse alguma resposta, como se esperasse que eu estivesse alí.

Pude entender porque ser um anjo é parecido com o inferno. Não ter o que fazer num momento como esse é algo doloroso.

Sentei ao lado de Cadu como se fosse uma tentativa de dizer que estou ao seu lado, mesmo que ele não pudesse me ver.

Uma folha da árvore caía, exatamente como no dia em que nos conhecemos. Nós dois queríamos pegá-la e nos esbarramos e caímos. Éramos crianças quando isso aconteceu. Cadu estendeu a mão e pegou a folha que caía na mesma direção. Dessa vez era ele quem ficaria com a folha.

Pegou um canivete que tinha no bolso, levantou-se e foi para a a frente da árvore. Seguí-o e vi que estava gravando seu nome embaixo do meu. Depois que terminou olhou em minha direção. Fiquei assustada, pois achei que podia me ver, mas segundos depois guardou o canivete e voltou para casa.

No caminho de volta ouvi as vizinhas dele conversando baixo:

_ Soube o que aconteceu?

_ Sim. Um rapaz tão jovem e uma coisa tão triste acontece. Até esqueceu de buscar a irmã no colégio.

_ Fiquei sabendo que ligaram para a mãe na clínica pedindo para irem buscar a Beatriz. Mas como pode? Ele deveria arrumar outra namorada!

_ Não seja tola! Não sabe nem o que diz.

Entramos na casa e a mãe de Cadu foi conversar com ele:

_ Não posso mais contar com você? Só pedi para que fosse buscar a Bia e nem isso você fez. Onde estava?

Ele passou pela mãe e foi entrando no quarto:

_ Andando por aí.

Sua mãe apareceu na porta:

_ Carlos Eduardo! Não esqueça que já passei por uma situação pior que a sua. E não fiquei me lamentando por aí.

Sem resposta alguma de Cadu, a senhora Virgínia foi fazer um lanche para Bia, que estava assustada.

Realmente, a situação dela havia sido pior. Viúva com dois filhos para criar e uma clínica para cuidar. Sem ajuda de ninguém, ela superou todas as barreiras, sem derrubar uma lágrima. Estranho, pois o casal Dantas era conhecido como um casal apaixonado. A senhora Virgínia é mesmo um mulher forte.

_ Duda! Vamos voltar para a praça. Ele já está dormindo.

_ Voltar? Por quê?

_ Lá explicarei.

Voltamos para a praça, já era noite. Guto subiu no banco:

_ Foi aqui que vocês se conheceram, aqui que ele percebeu que era apaixonado por você, aqui que vocês gravaram seus nomes numa árvore. Vê? A paixão é linda, mas só a amor transcende barreiras como o tempo, a distância, a morte.

Sentou-se e começou a chorar.

A dor dele, de gostar de alguém que está vivo, de não poder encontrar essa pessoa nem após a morte, devia ser uma dor insuportável.

Eu sabia pouco sobre ele. Pude perceber que era alguém forte, mas com seus momentos de fragilidade. Guto era alguém muito especial, que arriscou seu destino para me ajudar. Ele tinha feito mais que qualquer pessoa fez por mim e eu não podia fazer nada para ajudá-lo. Sentei ao seu lado e o abracei:

_ Não fique assim.

Pude ver a lua em seu olhar. As lágrimas davam um brilho diferente aos seus olhos. Retribuiu o abraço. O calor de seus braços, a respiração ofegante em meu ombros era algo indescritível. Não era um simples abraço entre amigos, nem mesmo um daqueles de alguém da família. Era mais que isso, um abraço que não tem significado.

Comecei a chorar também e, naquele momento começou a chover.

Dois anjos chorando sob a chuva de verão, numa noite de lua cheia. Era como se os céus estivessem compartilhando suas lágrimas com as nossas.

Guto olhou profundamente em meus olhos. As gotas da chuva e as lágrimas haviam se misturado em seu rosto. Ele colocou sua mão na minha nuca e aproximou meu rosto do dele e murmurou:

_ Eu não posso fazer isso.

_ Fazer o que?

_ Não posso!

Afastou-se de mim e algo surpreendente aconteceu. Asas grandes e do mais puro branco saíram de suas costas. Uma luz o envolveu e Guto gritou:

_ Eu não posso!

Um trovão respondeu seu grito angustiante, as asas desapareceram, nuvens escuras esconderam a lua. Guto estava caído no chão.

Um comentário:

Anônimo disse...

Ele ia beijar ela :O
e tu não deixou :@
e matou ele bua
ops. mas ele ja estava morto ^o)
isso não importa..emo má =p